“Eu queria a calma das brisas
e o silêncio da solidão,
eu queria o gorjeio dos pássaros
e leveza na palma da mão.
Eu queria a alegria das rochas banhadas pela maré
e a paisagem dos cômoros altos,
eu queria o azul do céu
e a infinidade desses asfaltos.
Eu queria sussurrar-lhe o meu amor mais sincero,
eu queria escutar os seus sonhos
e provar a delícia dos seus mistérios.
Eu queria a paz de olhar o futuro
e ter a certeza de que ficará tudo bem,
eu queria abraçar o mundo
e descobrir o que há além…
Também queria ser menos intensa
imensa
sentida…
Livre como um pássaro,
delicada como o coração,
porém…
fui escolhida para a poesia, lugar sem calmaria:
onde não prevalece razão,
onde brisa é ventania
e amor é paixão,
onde a alma se expande
e o que é gota transforma-se em furacão.”

 — (Thayane Thandra)



to-jupiter:

nature was here first and it has the right of way, as it should


“Aprendi que o artista não vê apenas. Ele tem visões. A visão vem acompanhada de loucuras, de coisinhas à toa, de fantasias, de peraltagens. Eu vejo pouco. Uso mais ter visões. Nas visões vêm as imagens, todas as transfigurações. O poeta humaniza as coisas, o tempo, o vento. As coisas, como estão no mundo, de tanto vê-las nos dão tédio. Temos que arrumar novos comportamentos para as coisas. E a visão nos socorre desse mesmal.”

 — (Manoel de Barros)





“Eu morri muitas vezes acreditando e esperando, esperando em um quarto olhando para o teto rachado, esperando por um telefonema, uma carta, uma batida na porta, um som.”

 — (Charles Bukowski)



brazilwonders:

Fabrício Carpinejar


“25 DE JULHO
DIA NACIONAL DO ESCRITOR

As palavras são descanso para o meu penar,
com elas sou o que quero aqui e lá:
o segredo que o violeiro cego cantou…
o candeeiro pelo qual o escuro se apaixonou…
o ardor e a beleza de todo escritor…
das letras e rimas sou eu encantador.

Eu sou a noite velando as estrelas antes do dia chegar.
Eu sou a lua que bate no vidro da tua janela, no primeiro andar.
Eu sou o assum preto, o bem-te-vi, o sabiá,
e sou, principalmente, a rasga-mortalha cortando o cosmos do agouro e do medo de se acabar.

Eu sou a relva, verde, forte, bonita.
Eu sou as cores, os laços e as estampas do meu vestido de chita.
Eu sou o sol, amarelo, cálido e brilhante.
Eu sou a terra florida e mansa sob as nuvens flutuantes.

Eu sou Francisco, Cristo, Maria e José,
Oxalá, Iemanjá, Oxóssi, Oxum e Oxumaré,
eu sou todas as religiões, andando de mãos dadas, pé com pé,
e posso ser até Deus… Se Deus quiser.

Eu sou a lâmina que acaba com o mal.
Eu sou a mulher que carrega no ventre o mais bonito astral.
Eu sou o côncavo e o convexo, o revólver e a bala,
a natureza, a beleza, o cacto e a dália.

Eu sou o tudo e o nada, alma minha,
pois dentro desse peito que ao meu ser convinha,
carrego o paradoxo de ser a totalidade e o esplendor,
porém, também, o oco e o inferior.

Eu sou o universo avassalador
e a ponta do meu lápis carrega alegria e calor,
eu sou ser singular, plural, ambíguo…
Sou feita de prosa, poesia e amor.”

 — (Thayane Thandra)



indubio:

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“Escrever nem uma coisa
Nem outra -
A fim de dizer todas -
Ou, pelo menos, nenhumas.

Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar -
Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes.”

 — (Manoel de Barros)



nordestebrasileiro:

Salvador, 1984. Foto por Miguel Rio Branco.